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  • Chris Vilhena

Relacionamento à distância, por que não?

Algumas reflexões sobre os questionamentos mais frequentes.


Quais as maiores dificuldades que o casal encontra ao se relacionar a distância?


Hoje, talvez mais do que em qualquer outro tempo, o que faz um casal é a vontade de ser casal. A instituição família, resistente, assume a possibilidade de novas modalidades para se manter de pé, mas há muito já não é a mesma. Novas configurações, novos acordos são incorporados a sua estrutura flexibilizando a construção de novos laços sociais - novas maneiras de ser e estar nas relações. Apesar disso, o relacionamento à distância, ainda que “encurtado” pelas novas tecnologias, não deixa de estar exposto à sua a maior ameaça: a restrição da convivência e suas consequências. Se o que hoje faz e mantém um casal unido é a vontade de ser casal, dividir a vida ou momentos em tempo real ou não, mas sempre através de algum recurso mediador pode desgastar a relação. Existem relações que foram construídas e sedimentadas ao vivo e que depois, por razões diferentes, são separadas... E existem aquelas que já nasceram “separadas”. Existem distâncias que são facilmente vencidas seja pela proximidade, seja pelos recursos financeiros que viabilizam um conviver mais frequente. Existem outras que não... sem perspectivas de um encontro regular equilibram-se no fio da esperança...


Homens e mulheres pensam de forma diferente quando a relação é de longe? Quem sofre mais?


Homens e mulheres pensam diferente. Homens pensam diferente de outros homens e mulheres pensam diferente de outras mulheres. Somos diferentes e cada um lida com um relacionamento à distância a sua maneira. O sofrimento com esse tipo de relação não é uma questão de gênero, mas de expectativas... Cada pessoa tem em seu íntimo desejos e necessidades. O que se espera de uma relação é o que poderá dar a dimensão do sofrimento causado pela distância. É igualmente importante considerar que essas expectativas estão sempre sujeitas às variações de humor, contextos e temperaturas. A forma de lidar com a situação “distância da pessoa amada” pode ser rapidamente alterada diante de uma urgência emocional que se apresente em função de alguma situação que fragilize um dos pares. Tudo é muito relativo e circunstancial.


A questão física, da presença e do contato sexual, pesa muito? Há homens que alegam não conseguir ficar sem sexo tanto tempo...


Dizer que não seria hipocrisia. Sexualidade também não é uma questão de gênero. Somos todos seres sexuados. As relações, as atitudes precisam ser sustentáveis. Sustentar e/ou suportar a falta do contato físico pode ser possível diante da perspectiva de um encontro a curto, médio prazo, talvez. Suspeito seria uma atitude de indiferença diante da ausência de uma boa perspectiva.



As novas tecnologias ajudam a manter a relação estável, mesmo de longe? Como?


Nada, absolutamente nada pode assegurar a estabilidade de uma relação seja qual for o seu formato. As novas tecnologias são moedas de dois lados. Ao mesmo tempo que podem facilitar, podem dificultar. Facilitam pelo acesso rápido e interativo. Mas por isso mesmo podem ser prejudiciais. Por que ele/a estava online e não falou comigo? Entrou no WhatsApp e não me respondeu? Quem é essa pessoa com quem iniciou uma amizade? Quem está te seguindo? Por quê??

Toda essa exposição à qual estamos submetidos pode facilmente ser objeto de questionamento se alguém resolver fazer diferente. Optar por não fazer parte dessa rede global pode gerar dúvidas: o que está escondendo?


Um casal que se relaciona a distância, tem mais propensão para a traição ou isso é um mito?


Não sei se propensão..., mas talvez se sintam mais “autorizados” e/ou “desculpabilizados” pela própria distância.


Como podemos fortalecer os vínculos de casal em uma relação à distância? Quais pequenas atitudes ajudam o casal a manter a conexão e não se distanciar?


Manter a conexão é o desafio. É importante levar em conta que uma relação à distância permita talvez que imaginemos, fantasiemos mais do que normalmente o fazemos. A ausência da convivência é geradora de espaços que podem ser facilmente preenchidos por nossa imaginação. Esse preenchimento pode ser desastroso quando aproximamos a pessoa amada àquilo que dela esperamos, mas não necessariamente daquilo que ela o é. Pode funcionar por um tempo..., mas por quanto tempo? O fortalecimento dos vínculos se dá pelo conhecimento das partes que se conectam. O exercício da escuta, não do que eu gostaria de ouvir, mas do que o outro é capaz de dizer... a curiosidade, o interesse genuíno no outro é o que pode manter viva uma verdadeira conexão à dois. A um, basta a pessoa com sua própria imaginação...


Abrir a relação é uma opção válida? Há casais que continuam se falando e mantendo contato, mas permitem pequenas escapadas para ambos, desde que eles não saibam. o que acha disso?


As estratégias são particulares. O que faz cada um feliz é particular, bem como os acordos firmados. Acordar é um passo. Sustentar é outro.


O que você considera mais importante para manter o vínculo do casal numa relação à distância? Quais os valores e atitudes fundamentais que devem ser incentivados?


Projetos. Algo no qual cada um possa investir e ter a sensação do pertencimento, do compartilhamento, da construção a dois. Exclusividade é um item importante. O casal, à distância, não participa diretamente da vida um do outro. Cada um divide sua vida com outras vidas. Estão na mesma rede social, frequentada por um cem número de outros... Encontrar algo que possa ser exclusivo do casal, da relação pode fazer a diferença. Cumplicidade, parceria, comprometimento com a autenticidade da relação são valores que contribuem para o sucesso dela.


Existe um limite de tempo para uma relação à distância. ou seja, um casal pode mesmo viver 3 ou 4 anos de uma relação morando em países distintos e se encontrando uma vez por ano? isso seria uma relação ou seria apenas uma forma de tamponar uma carência afetiva e não querer ficar só.


Não são poucas as relações de 15, 20 anos nas quais não há um simples encontro sequer – os espaços são comuns, a vida não mais. Contudo as pessoas estão hoje muito mais propensas a buscar a felicidade ainda que para isso tenham que romper com casamentos de longa data. Nem por isso o medo da solidão acabou. O destino que cada um dá a esse medo é... de cada um. A plasticidade, nossa capacidade de adaptação é fantástica. Até onde cada um ou cada casal é capaz de levar uma relação é um mistério. Sabemos, contudo, que para tudo há um limite e que o que atesta a saúde de um relacionamento é a felicidade individual de cada um.


Um casal que já tem um vínculo forte, mas precisa se afastar por qualquer razão (exemplo viagem de trabalho), consegue retomar a relação da mesma forma depois de um longo período longe (mais de um ano). Ou isso pode abalar a relação e acabar prejudicando o casal?


Dificilmente a relação se dará da mesma forma. Pode ser até melhor, mas dificilmente igual. Muita coisa acontece em um ano. E a forma que essas coisas afetam a pessoa e/ou o casal, são vividas individualmente e determinantes de mudanças. A existência de um vínculo anterior certamente serve de base e dá esteio ao que está por vir... ainda assim, não há garantias. Aliás, nunca há, seja qual for o formato da relação.


Quais os sinais que a relação está sendo prejudicada pela distância? o que perceber nas atitudes sua e do outro que mostram esse afastamento e que a relação vem perdendo força?


O próprio distanciamento. Toda relação requer investimento. Os relacionamentos à distância normalmente requerem uma dose extra. Quando algo se dá e começa a comprometer a relação, é inequívoca a perda de força que se manifesta através da queda no investimento. O timming passa a ser outro. A urgência da saudade e da vontade de suprir e/ou compensar a distância cedem lugar a uma certa preguiça ou enfado do relatório de bordo ou do uso dos mesmos e já sabidos recursos. Por maior que seja a criatividade, num momento de esfriamento, as ações ficam mais previsíveis e a tolerância reduzida.


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