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  • Chris Vilhena

A.N.S.I.E.D.A.D.E.

Cada época produz suas próprias doenças e não por acaso o transtorno de ansiedade generalizado (TAG) está entre as que mais se destacam em nossa sociedade pós contemporânea. Nesse artigo, a partir de alguns questionamentos, trago informações acerca de sua definição, causas, consequências a nível pessoal e profissional, riscos de agravamento, como evitar ou tratá-la.


Qual seria a melhor definição para ansiedade e o que, em termos psicológicos, pode levar a ela?


O nosso sistema nervoso central e a nossa mente necessitam de uma situação de conforto e de segurança para usufruir da sensação de repouso e bem-estar. 
Quando a nossa percepção nos aciona para uma situação de perigo, acontece o estado de alerta que nos prepara para uma ação que, em última instância, visa a retomada do bem-estar. Essa sinalização pode estar relacionada a um estímulo interno ou externo e a busca pelo “conforto mental” faz parte de nosso funcionamento normal.


O medo é um estado psicológico importante e, dentro de determinados parâmetros, saudável.


Pensando em termos evolutivos, faz muito pouco tempo que saímos das cavernas, onde tínhamos que lutar para assegurar nossa própria sobrevivência. A ativação do sistema nervoso central vinha como uma forma de estimular o nosso corpo para a luta ou para a fuga.
 Sua função protetiva é inegável.


Mas sofreria o homem das cavernas de angústia ou de transtornos de ansiedade generalizada? Provavelmente, não. Ele tinha medo. Quando temos medo, temos medo de algo. Para o medo há sempre um objeto. Na época, em questão, poderiam ser os leões, o frio, as tempestades.


Hoje, guardando as devidas proporções, continuamos lutando para assegurar a sobrevivência, mas os perigos são de outra ordem. Mais subjetivos porque afastados de um ponto de vista biológico, lutamos também, para assegurar outros valores culturalmente esculpidos.

Cada época produz suas próprias doenças e não por acaso o transtorno de ansiedade generalizado (TAG) está entre as que mais se destacam em nossa sociedade pós contemporânea. Tememos assaltos, guerras, situações de violência. Sim e deles procuramos nos proteger. Há algo concreto. Mas e quando tememos a perda de status, conforto, poder econômico, afetos, amizades, controles, privilégios, possibilidade de concretizar interesses?... E quando tememos a solidão, o não reconhecimento, o amor não correspondido? Entramos em um território extremamente subjetivo, mas igualmente capaz de disparar o estado de alerta já que o conforto mental está ameaçado. Para a angústia/ansiedade, o objeto não é definido. Estamos aí diante de uma situação de medo, sim, mas do medo do medo...


Existem dois tipos de ansiedade: a antecipatória e a reativa. Na antecipatória há a iminência de que algo ruim (que, normalmente, nunca chega) vai acontecer, mas faz a pessoa ficar hipervigilante o tempo todo. Não há um objeto ou foco preciso. Trata-se de uma apreensão difusa, aperto no peito, algo genérico. Algo vai acontecer, mas o quê? Na ansiedade reativa, como o nome sugere, ela se dá em resposta a algo. Em situações normais, receber o anúncio de uma reunião com o chefe em tempos de crise poderia gerar um estado de apreensão, de ansiedade diante de uma situação, no mínimo, delicada. É razoável esperar que isso aconteça. Contudo, em indivíduos com o transtorno de ansiedade, esse tipo de situação pode causar um estrago bem maior. Em estados de desequilíbrio emocional, o simples contato com situações inesperadas e desconhecidas são o suficiente para disparar esses estados ansiosos.


A ansiedade é um grande sintoma de características psicológicas que mostra a intersecção entre o físico e psíquico, uma vez que tem claros sintomas físicos, como: taquicardia (batedeira), sudorese, tremores, tensão muscular aumento das secreções (urinárias e fecais), aumento da motilidade intestinal, cefaleia (dor de cabeça).


Quais são os principais impactos notados em uma pessoa que sofre de ansiedade, tanto em nível pessoal como profissional?


A principal característica psíquica do estado ansioso é uma excitação, uma aceleração do pensamento, como se estivéssemos elaborando, planejando uma maneira de nos livrar do perigo e da maneira mais rápida possível.


Este movimento mental, na maioria das vezes, acaba causando uma certa confusão, uma ineficiência da ação, um aumento da sensação de perigo e de incapacidade de se livrar dele, o que configura um círculo vicioso, pois esta sensação só faz aumentar ainda mais o estado ansioso. Mente acelerada é mente desequilibrada. 
Este movimento impulsivo da mente se acelerar, de precisar ter tudo sob controle, para poder usufruir da sensação de repouso e conforto faz com que ela se excite, e se o problema não tiver uma solução mental imediata, como o que acontece na maioria dos casos, teremos a chamada ansiedade patológica, que tende a se cronificar e piorar com os anos.


Existe a possibilidade do indivíduo que sofra de ansiedade desenvolver algo pior a partir dela?


Como todo estado de desequilíbrio emocional, a ansiedade deve ser tratada. Esse estado de aceleração contínua não desaparece simplesmente se não houver um trabalho com essa finalidade. Buscar um tratamento é muito importante porque as crises de ansiedade podem se tornar recorrentes. Quando extremamente intensas são chamadas de Síndrome do Pânico (crise ansiosa aguda).


A melhor maneira de combater a ansiedade é conseguir evitá-la. Então, quais as melhores prevenções ou atos que possam diminuir as possibilidades de desenvolver ansiedade em meio a essa sociedade caótica?


A Dra Jan ChozenBays é autora do livro Como Domar um Elefante. Ali ela apresenta um programa de combate a ansiedade baseada em um argumento extremamente rico no qual toma a ansiedade como resultado de um modo de vida dos tempos atuais. Segundo Jan, temos o hábito de nos refugiar, constantemente, em três reinos. O reino do passado, o reino do futuro e o reino da fantasia.


Dificilmente estamos conectados no aqui e agora, dificilmente estamos verdadeiramente presentes no reino do presente, nas ações que estamos realizando. Há um automatismo em curso que nos faz crer ser multitarefeiro, um ser capaz de vencer as barreiras do tempo de modo a estar simultaneamente (se não física, mentalmente) em vários lugares. Para ela, estar efetivamente consciente do mundo ao redor, verdadeiramente conectado – sem deixar que ele o atropele – é o primeiro passo para retomar o controle da vida e reduzir o estresse, a ansiedade do dia a dia. Mas a questão que ela coloca é: como domar o selvagem elefante interior – a mente inquieta?


Ali, a partir de sua experiência como professora e orientadora em mosteiros zen, ela montou um programa de treinamento semanal, com lembretes e explicações detalhadas sobre os efeitos benéficos da atenção plena para o corpo e a mente. Sua leitura e prática apresentam-se como um caminho de ajuda, sem dúvida. Assim como o são, também, as práticas de yoga, as psicoterapias, os exercícios de meditação. Tudo aquilo que puder contribuir para que o indivíduo consiga nomear suas apreensões; para que possa se comprometer com aquilo pelo o que, mesmo com suas limitações, pode se responsabilizar; para que ele possa se alinhar com uma vida saudável porque plena de sentido, certamente irá favorecer a qualidade do seu dia-a-dia, bem como contribuir para lidar, com qualidade, com suas dificuldades e desafios.


Apesar de existir a possibilidade de evitá-la, em certos casos, a pressão sob o indivíduo é tamanha que ele não consegue resistir. Nesses casos em que a ansiedade foi inevitavelmente desenvolvida, quais os tratamentos? São tratamentos que conseguem livrar de vez a pessoa da ansiedade?


O melhor a fazer é procurar ajuda médica que nos casos de desordens emocionais ou psíquicas, estão sob a responsabilidade da Psiquiatria. O tratamento pode requerer o uso de medicamentos. Existem tipos de remédios que podem ajudar a controlar e diminuir a ansiedade. Os chamados ansiolíticos, os antidepressivos e os tranquilizantes maiores ou anti-psicóticos. Contudo, ainda que o recurso químico possa ser de grande ajuda, não se deve subestimar a importância do acompanhamento psicoterapêutico. Ele é fundamental para que o indivíduo possa, o mais rápido possível, prescindir do uso dos medicamentos e aprender a lidar com as situações que, potencialmente, tem o poder de disparar o desconforto psíquico.


Quais os benefícios de ser menos ansioso?


Sem dúvida a possibilidade de viver uma vida na qual não nos sentimos nem atrasados, nem adiantados. Uma vida livre da ansiedade é aquela na qual nos sentimos, verdadeiramente na hora e lugares certos. Não por termos um manual de garantia que nos assegura da assertividade e eficácia de nossas ações, mas porque menos inquietos estamos mais propensos a tomar decisões baseados na escuta de nossa voz interior: aquela que nos aponta o caminho que podemos trilhar naquele momento e pelo qual podemos nos responsabilizar.


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