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  • Chris Vilhena

Maternidade

Maternidade.


Cada uma vive essa experiência a sua maneira.


Passionais, doadoras, loucas, frias, infantis, amorosas, tensas, dedicadas, realistas... Diferentes versões de nós mesmas com as marcas mais fortes tatuando nosso perfil.


Diferenças à parte, todas passamos por um rito comum: o ato de parir. Aquele no qual somos convocadas a operar uma separação após longos meses de uma íntima convivência. Outras tantas separações virão vida a fora e terão muita importância ao longo do desenvolvimento da criança e da própria experiência da maternagem. Mas esse ato inaugural de parir é ímpar!


Falo em primeira pessoa. Falo dos meus partos e a semântica já brinca ... ao dar à luz a duas crianças, dei à luz a mim mesma.


Meus partos foram de cócoras.


No primeiro meu bebê resolveu refletir um pouco antes de fazer a passagem para um novo mundo e sua mãozinha na cabeça exigiram um bocado de força extra. O segundo, ligeiro que só, deixou a equipe agitada... não sabiam se seguravam a criança ou a placenta! Não sabia o sexo e, naquele instante, nem tampouco os nomes. Sabia apenas que era hora de parir. Participei ativamente daquele momento. Fiz muita força, senti medo e me assustei ao ver a cabeça do meu bebê aparecer por entre minhas pernas! Essa experiência carrego em mim. É impactante ter o milagre da vida ali, bem diante dos olhos.

A magia desse momento se desdobrou. Ela foi poderosa. Ela é. Seu poder está no fazer. Fazer você mesmo. Viver o processo.


Não se trata aqui de uma apologia ao naturalismo ou qualquer crítica à intervenções tantas vezes necessárias. Trata-se antes de tudo de uma reflexão, talvez um alerta: devemos estar atentos para não terceirizar a nossa própria vida. Corremos esse risco quando agendamos nossos partos; quando esperamos que as escolas ou terapeutas ocupem-se da educação de nossos filhos; quando nos entupimos de medicamentos para evitar as dores de lutos que precisam ser vividos; quando deixamos a cargo do outro a responsabilidade pela realização de nossos sonhos; quando nos confundimos com a imagem que desejamos transmitir em nossas redes sociais ou quando não encaramos no espelho a expressão de nossos rostos que muitas vezes retrata um estado de humor bem diferente daquele escolhido no cardápio de emojis que temos à disposição.


Esse modelo de vida nos coloca em rota de colisão.

Não aprendemos na velocidade da onda digital; não resolvemos nossos problemas com DEL e nem replicamos experiências felizes com o Ctrl+C Ctrl+V.


Certamente não é por acaso que a experiência DIY (Do It Yourself) esteja tão em alta.

Desaprender para reaprender.

Aprender a aprender.

Aprender a fazer.

PARIR.


Participar do processo de criação, de execução permite rever nossa própria relação com o tempo. Será que ela não pode ser mais gentil? Ter um significado mais profundo e alinhado aos nossos valores?

Essa assepsia da automação dos processos de vida nos afasta daquilo que é mais nosso: nossa própria humanidade - esse lugar imenso de vastas emoções e pensamentos imperfeitos.


Mari e Lucas! <3

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