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  • Chris Vilhena

Parto

E naquela tarde Antônia se pariu mais uma vez.

Acredito que de tempos em tempos damos luz à nós mesmos. E a linguagem aqui vem de modo preciso: luz... nos parimos; nos iluminamos.


Lançando luz sob aspectos antes ocultos, temos a oportunidade de renascer em nossas próprias vidas. Um novo olhar para os fatos tem o poder ressignificá-los. E toda ressignificação leva a uma nova organização.


Ao acessar o profundo e sagrado em si, Antônia pode emergir de um tempo em que vivia uma espécie de desvio de função. Nem sempre nos damos conta, mas acontece sempre que vivemos um papel social, exercendo as funções de outro.


Se buscamos qualidade em nossas vidas, é fundamental que os papéis que desempenhamos estejam nos permitindo viver o nosso darma. Mãe é mãe. Esposa, esposa. Filho, filho. Profissional, profissional. Quando do lugar de mãe respondo pelo da profissional, por exemplo, incorro no erro de não viver plenamente qualquer um dos dois.

Desalinho, desconexão.


Mas naquela tarde, a partir da intervenção da terapeuta, Antônia apercebeu-se que em seu casamento era muito mais mãe do que mulher de seu marido.


Triste constatação.


E foi, justamente, a partir daí que ela pode compreender as razões das atitudes que a mantinham naquele lugar. Consciente delas, fez os movimentos necessários e se reapropriou do seu lugar.


Por mais triste que tenha sido sua constatação, foi ali que Antônia sentiu as dores do seu próprio parto.


Morreu mãe de seu marido, para renascer sua esposa.

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