Buscar
  • Chris Vilhena

Recursos emocionais

Certa vez, ouvi uma história sobre os lobos que habitam em nós e a questão daquele que ficava mais forte. Acredito que muitos a conheçam. Fica mais forte aquele que alimentamos mais. Alimentar o bom ou o mau é uma questão, como sempre, de escolha. Temos aqui uma boa metáfora sobre nossa dualidade e liberdade de escolha, ainda que essa tal liberdade esteja completamente condicionada por aquilo que somos.


Algum tempo depois fui apresentada a outra história de lobos. Nessa já havia uma alcateia sendo representada por cada um dos lobos da história. A complexidade em questão me pareceu mais apropriada para a construção da metáfora que estava em curso. Nessa história, o velho índio conta a seu neto que, naquele exato instante, havia uma luta sendo travada dentro da mente e do coração de todo ser humano existente sobre a face da terra, inclusive dentro dele próprio. E ele o alertava: se você não souber dessa batalha ela o fará perder o juízo e você nunca saberá que direção tomar. Se você não entender as forças do bem e do mal, correrá o risco de viver a vida toda em um grande tumulto. O neto, surpreso, logo quis saber quem ganharia a batalha e ouviu do avô a sábia resposta: de preferência, ambos. Diante da expressão inequívoca do “como assim?” de seu neto, o índio apressou-se logo a lhe dar mais elementos para entender o que se passava.


(…) Existem dois grandes lobos vivendo em mim: um branco e outro preto. O branco é bom, gentil e não faz mal a ninguém. Vive em harmonia com tudo e todos a sua volta. Toma conta dos outros lobos da matilha e nunca se desvia de sua natureza. O lobo preto também vive dentro de mim, mas esse é bem diferente. É ruidoso, zangado, descontente, ciumento e medroso. Basta uma coisa e se enche de fúria. É difícil conviver com eles, pois brigam para dominar meu espírito. Se escolher alimentar somente o branco, o preto ficará a espreita, esperando o momento oportuno para atacar e causar grandes problemas. Ele também tem fome e brigará pela atenção que tanto anseia. Mas, se eu prestar atenção nele, compreendendo sua natureza, se souber reconhecer sua força poderosa e deixá-lo saber que poderei ter sua ajuda quando necessário, todos venceremos. Ele tem qualidades importantes, é feroz, determinado, tem estratégias tortuososas e não se deixará subjugar. Se eu alimentar os dois, eles não brigarão por minha atenção e, diante de cada circunstância, eu poderei, no silêncio de meu íntimo, saber de qual melhor “recurso lobo” lançar mão. É preciso reconhecer e respeitar as forças que nos habitam. Subestimá-las é um grande erro. Manter nossos lobos alimentados é uma forma de nos mantermos em equilíbrio, em paz. (*)


Precisamos escolher como queremos lidar com essas forças opostas em nosso interior. Essa decisão determinará a qualidade de nossa vida. Em nossa experiência humana, cada um de nós está no meio de uma batalha contínua. Existe uma alcateia inteira do lobo branco e outra do lobo preto em nós. Temos o lobo amoroso, bondoso, gentil, sedutor, altruísta, forte e também o mentiroso, estrategista, egoísta, invejoso e por aí vai.


Não há nada que possamos ver ou julgar que não exista em nós. Todos os dias temos a oportunidade de reconhecê-las. Todos os dias temos, diante de nós, a oportunidade de compreender nossas reações, emoções e sentimentos. Identificar as forças em ação e decidir o que desejamos fazer com elas. Podemos, ao longo de nossa história, das nossas experiências de dor e deleite, buscar essa aproximação, esse contato mais íntimo conosco. Aprofundar o conhecimento sobre quem somos, tanto daquilo que nos orgulhamos, quanto daquilo que preferiríamos não (re)conhecer, nos coloca diante de um dos grandes desafios dessa aventura chamada vida: lapidar nossa melhor versão.


(*) Baseado em: “Como entender o efeito sombra em sua vida” de Debbie Ford.

0 visualização

© 2019 - Chris Vilhena criado por Ag5521